29.12.11

A OUTRA MASSA CRÍTICA


Escrevo rápido com uma sensação de desespero e frustração. "Não", penso comigo, "isso não quer dizer nada, isso não mudará nada". Custo a acreditar que algumas pessoas foram conversar com as autoridades locais e fizeram uma espécie de acordo, ou sugeriram medidas para govertamentabilidade da MASSA CRÍTICA. É claro, ninguém falou pela Massa Crítica, ninguém ousaria dizer que estava representando um evento que têm por princípios a horizontalidade e a ausência de representação, ninguém faria isso sem ser rechaçado e, no mínimo, virar piada. Por outro lado, o que ocorreu hoje - indivíduos que falaram por sí próprios, dialogando com as autoridades (e a horizontalidade?) sobre quem deve "proteger" a MASSA - me deixou profundamente abalado.

Dar esse passo para trás não faz justiça nem a nós mesmos que fomos atropelados, quanto menos ao número inestimável de pessoas que usam a bicicleta como transporte e são atropeladas por veículos automotores todos os dias. A essa altura do texto, muitos já devem estar fazendo pouco caso da minha frustração, filosofando talvez sobre como é infantil e pernicioso ser radical dessa forma. Pra que esses tenham logo certeza disso (e para não me alongar muito aqui) vou explicitar minha linha de reflexão, que é pensar a Massa Crítica como o evento mais RADICAL e CRÍTICO ao deserviço à população que governos e montadoras de carros praticam, que possuiu uma HISTÓRIA e CULTURA DE DESOBEDIÊNCIA À SOCIEDADE DO AUTOMÓVEL, que PROTESTA e que tem em comum um princípio tão caro ao anarquismo que é a HORIZONTALIDADE. (Sim, eu quero repetir essa palavra, e escrever quantas vezes puder pra que os 'indivíduos' que tem simpatia pela Massa e participam da mesma reflitam um pouco mais sobre seus significados e seus desdobramentos...)


Assim, pude perceber através desse 'encontro' a triste incapacidade que algumas pessoas tem em dar legitimidade para qualquer organização popular que esteja aquém, ou mesmo CONTRA as instâncias de poder local. Além disso, fica de exemplo para todos que querem organizar sua rebeldia, que até para ir contra você precisará pedir permissão. 
É óbvio que isso não é e nunca será um argumento para a maioria branca, estudante universitária, que possui direitos, cidadanias e papéis bem definidos na sociedade que frequenta o evento (em vias de ser patrocinado por uma marca de bicicletas que chegará (de carro) para distribuir bonés-???-) , então vou diretos aos pontos de choque, nomeando personagens tão fictícios quanto reais para tramar meu pensamento:





- ILUSÃO DE SEGURANÇA PROPORCIONADA PELA ESCOLTA:


'A' achará incrível a primeira, a segunda e a terceira massa crítica das quais participou. se sentiu livre pra pedalar, resolveu ir sozinho até a casa de um amigo em um dia de semana à noite e foi atropelado por um ônibus de linha.




- CICLISTAS EVENTUAIS QUE NÃO QUESTIONAM O CARRO:


'B' andará de bicicleta somente durante as massas críticas, afinal é seguro e um ótimo meio para fazer contatos, tanto afetivos quanto profissionais; jamais andará no trânsito, caótico e perigoso por natureza, além de tudo tem seu carro e seria impossível chegar suado no trabalho. esquece. frequenta a massa como quem brinca com autoramas, carrinhos de controle remoto e aeroplanos.


- CONTROLE E CATALOGAÇÃO DE ATIVISTAS E OU 'DESORDEIROS' - FLAGRANTE

'C' sempre gostou de participar da massa crítica, aproveita a proteção de seus iguais pra soltar um pouco mais sua indignação, grita com motoristas, não se sente vítima e quer discutir, marcar território; em uma briga, um motorista se excede, coloca o carro pra cima. C discute e amassa o carro. Um agente próximo em serviço faz o possível pra preendê-lo em flagrante. nada é mais sagrado que a propriedade privada. C é preso e nenhum dos indivíduos que estavam de bicicleta ao seu lado faz algo para impedir. indivíduos que testemunharão a favor do motorista estavam de bicicleta..

A OUTRA MASSA CRÍTICA

Em 15 minutos, os primeiros dessa Sexta em que haverá a Massa Crítica Legal, me senti horrível e rapidamente enumerei esses três pontos. Gostaria que 'B' não  estivesse em uma MASSA CRÍTICA. Mas nessa que é protegida, segura, um circo bonito e - mais que nobre e respeitável, RESPEITADORA -, 'B' está. Seria menos frustrante para mim que esses passeios fossem patrocinados por companhias telefônicas e hipermercados tradicionais da cidade. Ao menos a publicidade não esconde seus interesses e este passeio não se chamaria Massa Crítica. Estou delirando, ou não há mais volta?

Escrevo para que grupos amanhã se separem da Massa Legal, ou puxem um Olé inteiro, ou mintam, ou não dialoguem, ou causem constrangimento aos controles: inventem qualquer coisa. A CRITICA É CRIATIVA, portanto, DESOBEDEÇAM!

6 comentários:

Anonymous said...

o que esperar da pequena burguesia, da classe média? só isso, mesmo... revolução quem faz tá mais embaixo...

AlexAvancini said...

É esta a visão mesmo, a massa crítica não pode se transformar em um evento do estado.

Ótimo, parabéns pelo post.

Alex Avancini

airesbecker said...

Olha eu sou um dos que foi no MP defender a MC e defendi a MC dentro da minha visão que tenho postado no vadebici e todos que lá comentaram me agradeceram e elogiaram.
Posso te garantir que ninguém lá negociou com as autoridades a presença deles, nem ao menos fez acordo pela governabilidade ou defendeu a "proteção"do MC, sou contra que a dita "proteção" possa prejudicar ou caráter do MC, sua forma ou conteúdo.
Acontece que os fatos ocorreram, as pressões e notícias contrárias estão em curso e acho que a defesa pode ser positiva.
Abraço.
Obs. Te apresenta.

Olavo Ludwig said...

Escrever: "...fizeram uma espécie de acordo, ou sugeriram medidas para govertamentabilidade da MASSA CRÍTICA." É bem parecido com escrever um artigo na ZH malhando os baderneiros da massa e criticando algumas de suas ações, sem estar presente e ver o que realmente aconteceu, ou seja, muito ruim.

O "A" pode existir mesmo sem a escolta, a massa proporciona a segurança naturalmente pela quantidade, isto acontece nos outros passeios em grupo também.

"C" deveria ser mais inteligente e não usar a violência, principalmente com motoristas que naturalmente já são mais violentos e estressados e ainda por cima estão armados, deveria tentar entender melhora a expressão: "Gentileza gera Gentileza", mas de qualquer forma se eu estiver perto dele irei defendê-lo e certamente testemunharei ao seu favor, pois pra mim nada é mais sagrado que a vida.
"Bs" estão sempre nas massas, independente da escolta. Eu gostaria que estivesse presente todo o alfabeto, pois só dessa forma vamos conseguir uma mudança cultural na nossa sociedade.

Olavo Ludwig said...

Mais um detalhe a presença da EPTC e BM não é decisão de ninguém que participada da massa, certamente não foi decisão das pessoas que foram na reunião com o MP, é uma decisão exclusiva dos comandantes dessas instituições. Cabe a quem participa da massa apenas: ignorá-los, vê-los como inimigos ou vê-los como pessoas e respeitá-los como tal.

Olavo Ludwig said...

Eu ia colar o texto aqui, mas achei que ficaria muito grande, então recomendo a leitura no link:
http://massacriticapoa.wordpress.com/como-fazer-uma-massa-critica/

Recomendo a leitura de todo ele, mas se der preguiça, pelo menos os ítens:
A Brigada da Testosterona
Polícia